domingo, 22 de maio de 2016

Minha Experiência Socialista








                     Nos primórdios da minha adolescência, em torno de 14 anos, entrei em contato pela primeira vez com o doutrinamento socialista na escola, naquela época era natural e sinônimo de elegância intelectual possuir um declínio de esquerda e defender a luta de classes como motor da história com fervor. Rapidamente fui cooptado para o doutrinamento através das juventudes socialistas partidárias.

         Em um primeiro momento, tudo aquilo fazia muito sentido para mim, como vim de família humilde, passei a acreditar que minha situação era proveniente da opressão da burguesia, meu pai alcoólatra e minha mãe morrendo com câncer nos corredores do SUS seriam vitimas de uma entidade chamada capitalismo, e eu também. Aliás, uma das coisas que mais aprendi na juventude socialista é se vitimar de forma apaixonada diante da realidade da vida e que sua existência só poderia ser modificada se conseguíssemos implantar a revolução do proletariado e dominar toda propriedade privada, sem isso todos nós continuaríamos seguindo uma vida miserável e vil.
           Os encontros eram quase religiosos, tínhamos que falar jargões socialistas, conhecer, mesmo que superficialmente, o manifesto comunista era essencial para ser aceito e reconhecido no grupo. Apesar de ter tudo que precisava, como um lar, comida, educação, lazer gratuito e acesso médico, mesmo que com deficiências, aquilo já não me parecia mais suficiente, precisávamos mostras as pessoas que o único caminho da felicidade plena era acabar com a burguesia e implantar a ditadura do proletariado para se chegar ao comunismo.
       Cheguei a protestar de forma convicta em frente as lojas Mcdonalds e a Coca-Cola por serem símbolos do imperialismo americano, desconsiderando que lá dentro existiam centenas e milhares de jovens em todo mundo em sua primeira experiência de emprego, tentando construir suas próprias vidas. Mas não, nós estávamos ali para convence-los que eram explorados e precisavam se unir a nós. Não entendia porque estes não escutavam nossos apelos emocionais, sofria por achar que eles estavam impregnados pela "alienação" capitalista, era preciso intensificar as forças e partir, em alguns momentos, para violência, como a depredação desses estabelecimentos capitalistas exploradores para chamar atenção.
    Por sorte, entrei na igreja protestante e lá, pela primeira vez, aprendi o que era solidariedade, colaboração e transformação da realidade pelo serviço. Contudo, meus doutrinadores socialistas, seja na escola, seja na faculdade, exortavam-me que ajudar ao próximo era o principal instrumento do capitalismo para dominação e alienação dos trabalhadores. 
   Lembro-me como vivi um doloroso conflito ao ver uma família na rua e fui tocado em oferecer alimentos e abrigo a eles, as vozes de alguns dos meus professores ecoavam em minha mente, "você deve coopta-los para a luta comunista, não caia na cilada capitalista do assistencialismo". Bom, felizmente deixei meu coração agir, não a razão, e ajudei aquela família, mesmo que de forma paliativa, senti que, naquele momento, era o melhor que eu podia fazer ao invés de falar a eles sobre nossa revolução social.
 Na faculdade, fui presidente de centro acadêmico, meus heróis latinos eram todos ex-guerrilheiros, lia tudo sobre a vida deles e me espelhava em suas ações de altruísmo e camaradagem a causa comunista, mesmo que isso implicasse em matar o próximo sem hesitação em nome de um "bem maior". Éramos totalmente blindados das doutrinas liberais, esse termo, aliás, era o mais próximo daquilo que aprendi ser o demônio na igreja, era preciso combater a qualquer custo toda forma de ideologia capitalista, mesmo sem conhecimento. Nossa convicção era tão forte que sequer tínhamos interesse de estudar tais ideias, o que poderia inclusive ser visto como uma traição a Max sem precedentes. Lembro de ter desprezado o idioma inglês na adolescência em decorrência do ódio que possuía aos americanos imperialistas, fiz o vestibular em espanhol inclusive. Demorei para descobrir que o ódio que tinha dos americanos era na verdade uma canalização da revolta que possuía por não poder usufruir de suas conquistas.
  Abro um parêntese aqui para falar da burguesia. Com o tempo, mudamos o significado da palavra, burguesia não se referia mais aqueles que detinham os meios de produção, na verdade, taxávamos de burgueses todos aqueles que não concordassem conosco. Usávamos de forma indiscriminada o termo e de forma ofensiva. Assim, criamos novas categorias, advogado burguês, médico burguês, juiz burguês, patrão e trabalhador burgueses, etc. Não importava, se não concordassem conosco e não fossem favoráveis à nossa revolução, alcunhávamos como tais, mesmo dentro de uma mesma classe. Ainda na faculdade cogitei partir para cuba para fortalecer meus conhecimentos socialistas. Ficava cada vez mais claro para mim o poder do doutrinamento politico e, na igreja descobria aos poucos também a vertente do doutrinamento religioso. Não posso negar que tive inúmeras experiências negativas com essa última também.
Hoje reconheço o perigo dessas duas formas de doutrinamento que, quando unidas, causam efeitos devastadores, principalmente na fase de vulnerabilidade que é a adolescência, o que explica a relativa facilidade de cooptação de jovens por grupos religiosos/políticos extremistas no mundo, como o destrutivo Estado Islâmico.
Quando terminei a faculdade de medicina, por ironia do destino, fui convocado para servir as forças armadas. Um delírio para um comunista convicto! Não bastasse odiar os militares pelo período da ditadura, ainda estava sendo cooptado pelo Estado burguês para servi-lo na defesa da propriedade privada. Nasci em 1984, já no fim do regime militar, tudo o que sabia sobre o período era através dos professores e histórias contadas.
Durante meu tempo de caserna, descobri que  exageraram propositalmente para mim, existiam seres humanos incríveis ali, amigos leais e pessoas dispostas a dedicar toda as suas vidas a serviço do país independente de governos. Tive oportunidade de conversar com pessoas que estavam do “outro lado” e eles me falaram que não tinham um projeto de poder, estavam protegendo o país de uma outra forma de ditadura ainda mais sanguinolenta, a que eu defendia até então. Vivi uma crise sem precedentes, pois de fato antes de alcançarmos o comunismo instalaríamos uma ditadura do proletariado, que na prática, foi a mais cruel de todas na terra, a experiência da União Soviética, leste europeu, Cuba, China e Coreia do Norte foram destrutivas a humanidade, um genocídio sem precedentes, justiçamento e assassinatos em praças publicas eram comuns, fusão do partido com governo, nacionalização e destruição da propriedade privada. Descobri ainda que, no Brasil, ocorreram 286 mortes pelo regime durante mais de 20 anos, dados da própria comissão da verdade, mas me fizeram acreditar que tinham sido milhões de mortos. Na verdade, a grande maioria das pessoas que pegaram em armas não lutaram por uma democracia, essa definitivamente não fazia parte de seus planos, objetivo era um só, implantar a ditadura do proletariado. Essas verdades foram muito duras para eu aceitar.
Fui obrigado a digerir essa realidade e ver o outro lado do período militar. Enfatizo que desprezo toda forma de tirana e acredito que a democracia, apesar de todas as suas falhas, ainda é o melhor melhor modelo político existente, contudo nunca fez parta da luta do proletariado a democracia, isso precisa ficar muito claro. A transição do Brasil para a democracia não se deu com derramamento de sangue como eu achava, mas simplesmente porque já não existia a ameaça socialista, a união soviética sucumbiu a sua própria farsa, a experiência havia fracassado, assim os militares não mais resistiram em colaborar com a transição para o novo Brasil pós-88. Com essa experiência, aprendi a não julgar atos do passado com olhar do futuro, desconsiderando seu contexto histórico, seja de qual lado for.
 Assim que me formei, abri uma empresa e comecei a estudar sobre estratégias de mercado, vi o quão era mais adequado a vida as ideias liberais. Rapidamente percebi que o livre mercado acolhia melhor a humanidade dos seres humanos e a complexidade de suas emoções, o comunismo, ao contrário, forçava a todos a um estagio transitório, que jamais terminaria, de miséria e opressão. Com pouco estudo percebi também que nenhum outro sistema tirou tantas pessoas da pobreza ou aumentou a expectativa de vida global, além de ter promovido avanços antes impensáveis na medicina. Descobri ainda que ser médico e empresário em um país com um Estado burocrático, ineficiente e corrupto é um ato de coragem e amor ao país. São anos para ter algum retorno, devido a carga tributária e trabalhista elevadíssimas. Conheci inúmeros empresários e descobri, ao contrário do que me falavam, que em sua grande maioria eram pessoas com belíssimas historias de superação e determinação, enquanto, do outro lado, a maioria das pessoas só sabiam reclamar de tudo e não eram muito adeptas ao trabalho que tanto defendiam.  Assim, despretensiosamente, “amanheci” como um burguês traidor.

 Hoje acredito que o contraponto do capitalismo é a solidariedade e a colaboração, não o comunismo. Lutar por uma sociedade mais solidária e menos destrutiva consiste em um imperativo ético, racional e humano, não doutrinário. Consegui me libertar das amarras socialistas, mas não é fácil, muita gente não teve a mesma sorte e ficou pelo caminho lamentando o declínio global de suas ideologias. Atualmente, os poucos que insistem em defender cegamente a velha luta de classes tornaram-se de presença insuportável e favorecem, com sua atitudes extremistas, cada vez mais a libertação da juventude dessas ideias históricas.
O momento é outro, precisamos superar o passado e entender que a nova dinâmica da vida nos exige cada vez mais criatividade, não há mais espaço para o bipolarismo. A emergência das novas necessidades humanas em um mundo cada vez mais globalizado obriga-nos a sermos mais independentes  e inteligentes. O livre mercado não é o sistema mais justo do mundo, mas ainda é o melhor que temos, espero que surja algo ainda melhor no futuro, mais alinhado com respeito a vida, algo realmente novo, não sombras do passado.


quarta-feira, 13 de abril de 2016

Folha em branco?







Insisto em contradizer cientistas e religiosos, 
definitivamente não nascemos sendo uma folha em branco. 
Ao contrário,  carregamos já ao nascer uma bela história desenhada em nossos corações. 
Declamamos nossa poesia nata a cada respiração, a cada sorriso ou choro. 
Se todos pudessem reler a história pessoal original, 
aquela que já é trazida no intimo antes do primeiro esplendor.
Como gostaria que fossemos impostos a menos vírgulas e pontos em nossos escritos interiores.
Que as reticências inconclusas de relações incertas fossem completadas ou substituídas por predicados  mais amenos e afetuosos.
Se existissem menos interrogações alheias e mais exclamações vivas! 
Mais escolhas em favor da vida, não da sorte, do infame acaso que insiste em randomizar as letras de nossa própria narrativa. 
Como seríamos mais felizes se apagássemos as letras tortas, aquelas que insistem em relacionar nossa alegria as expectativas do outro, amargando o agora.
Como seria bom se tudo pudéssemos, sem medo de arriscar, de errar, voaríamos alto, longe, distante, ao som tranquilo do vento e perto do calor acolhedor do sol.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Afinal, o que é saúde?


                    





               



                     Saúde é um dos conceitos mais difíceis de se estabelecer, pois varia muito entre culturas, povos e nações. Para OMS, saúde  é "um estado de completo bem-estar físico, mental e social". Percebe-se que por muito tempo o conceito de saúde era estatístico, ou seja, limitava-se a ausência de doenças, que correspondia a tudo que estivesse fora da curva de normalidade de Gauss.         
          Evidentemente pelo conceito da OMS, poucas pessoa teriam saúde, pois esse estado conceito é praticamente impossível de existir em conjunto, algo utópico, contudo mais sistêmico que o antigo conceito cartesiano de anormalidade funcional de órgãos. A saúde, segundo Naomar Filho, é um problema simultaneamente filosófico, científico, tecnológico, político e prático.              
                   Reconhecemos que a saúde é  um valor coletivo, um bem de todos, devendo cada um gozá-la individualmente, sem prejuízo de outrem e, solidariamente, com todos.
                 Ainda segundo a OMS, a saúde depende da relação do indivíduo na sociedade, o que bem é verdade. Pois indivíduos organicamente saudáveis se inseridos em ambientes hostis, não terão  bem estar por completo.                
             Em resumo, o conceito de saúde é muito complexo, subjetivo e amplo, sendo qualquer tentativa de restringi-lo a métodos estatísticos  e a funcionalidade de órgãos uma limitação filosófica e até espiritual do ser, do homem em relação a sua própria natureza, da vida em detrimento da simples matéria em constante movimetação/transmutação. Cuidar da matéria não significa, necessariamente, velar pela saúde.É preciso ainda reconhecer, necessitamos de menos intervenção hospitalar e mais cuidado em saúde, zelo e reverência a vida.

quarta-feira, 30 de março de 2016

RIFA (Clarice Linspector)


Eu tinha 14 anos quando me deparei com ela, minha poetisa favorita, com olhar frio, ucraniana de pernambuco, narra os dramas da alma e vida humana, obrigado por sua divina obra, segue uma pequena degustação:

RIFA

Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade
está um pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos, e cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente
que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado,
coração que acha que Tim Maia estava certo
quando escreveu... "não quero dinheiro,
eu quero amor sincero, é isso que eu espero...".
Um idealista...
Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece,
e mantém sempre viva a esperança de ser feliz,
sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações
e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste
em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que,
abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas,
mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado
indicado apenas para quem quer viver intensamente e,
contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida
matando o tempo, defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas:
" O Senhor poder conferir", eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer".
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro
que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que,
ainda não foi adotado, provavelmente,
por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar, mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário
a publicar seus segredos e, a ter a petulância
de se aventurar como poeta.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

L'homme et la femme













j`adore ce poème, il parle sur des écart entre hommes et femmes dans forme plus que parfait! Merci Victor Hugo!




L’homme est la plus élevée des créatures; 
la femme est le plus sublime des idéaux. 

Dieu a fait pour l’homme un trône; 
pour la femme un autel. 
Le trône exalte; l’autel sanctifie. 

L’homme est le cerveau, 
la femme le coeur. 
Le cerveau fabrique la lumière; le coeur produit l’Amour. 
La lumière féconde; l’Amour ressuscite. 

L’homme est fort par la raison; 
la femme est invincible par les larmes. 
La raison convainc; 
les larmes émeuvent. 

L’homme est capable de tous les héroïsmes; 
la femme de tous les martyres. 
L’héroïsme ennoblit; 
le martyre sublime. 

L’homme a la suprématie; 
la femme la préférence. 
La suprématie signifie la force ; 
la préférence représente le droit. 

L’homme est un génie, 
la femme un ange. 
Le génie est incommensurable; 
l’ange indéfinissable. 

L’aspiration de l’homme, c’est la suprême gloire; 
l’aspiration de la femme, c’est l’extrême vertu. 
La gloire fait tout ce qui est grand;
la vertu fait tout ce qui est divin. 

L’homme est un Code; 
la femme un Evangile. 
Le Code corrige; 
l’Evangile parfait
. 
L’homme pense; 
la femme songe. 
Penser, c’est avoir dans le crâne une larve; 
songer, c’est avoir sur le front une auréole. 

L’homme est un océan; 
la femme est un lac. 
L’Océan a la perle qui orne; 
le lac, la poésie qui éclaire. 

L’homme est un aigle qui vole; 
la femme est le rossignol qui chante. 
Voler, c’est dominer l’espace; 
chanter, c’est conquérir l’Ame. 

L’homme est un Temple; 
la femme est le Sanctuaire. 
Devant le Temple nous nous découvrons; 
devant le Sanctuaire nous nous agenouillons. 

Enfin: l’homme est placé où finit la terre; 
la femme où commence le ciel

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

O Poço de Neruda









               Como não repensar sobre nosso poço interior com essa obra de arte de Pablo Neruda,  faz-nos refletir sobre os pensamentos  que  cultivamos em nosso coração. O que tu tens plantado? Pântanos selvagens, lama e areia? ou um belo jardim com jasmins e cidreiras? Tenho uma acácia amarela e uma bela e frondosa oliveira.



O POÇO
(Pablo Neruda)


Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,

não me firas a mim porque te feres

domingo, 6 de dezembro de 2015

Entenda porque Impeachement não é Golpe.









               Na contramão do que alguns políticos querem caraterizar, assim como alguns jornalistas e "intelectuais" de esquerda é preciso que fique claro que impeachement não é golpe. Pelo contrário, é um remédio constitucional fruto de uma democracia madura, uma oportunidade dada ao povo, através de seus representantes, de retirarem do poder o presidente que já não lhes representa os anseios.
             Assim, ser eleito democraticamente,  significa sim, poder ser exposto a um processo de impedimento, com base jurídica legal e em nada abalando as estruturas democráticas do pais. Podendo representar, na verdade, o poder e soberania do Povo, pois é licito a qualquer cidadão apresentar ao congresso um pedido de impedimento, cabendo ao presidente da câmara apenas aceita-lo ou não, independente de suas motivações.
                A partir da aceitação, inicia-se um amplo processo de avaliação com direito a defesa e contraditório nas duas casas. Lembro que  FHC foi alvo de 17 pedidos de impedimento, um foi aceito, Lula, 34, nenhum foi aceito. Dilma teve 42 pedidos e somente o ultimo foi aceito para apreciação da casa.
                    Agora a decisão será puramente política e o fator que mais deve repercutir nas decisões e convicções dos deputados serão os "ecos das ruas". Com 67% de rejeição, manifestações agremiando mais de 2 milhões de participantes em via pública e um cenário de crise econômica, a governabilidade da presidente está em cheque, em um pano de fundo semelhante ao vivido pelo ex-presidente Collor.
                     No parlamentarismo, o primeiro ministro ao perder a governabilidade junto a câmara automaticamente está deposto, pois depende fundamentalmente desse para o exercício de seu governo, sendo natural o impedimento deste nessas situações. No presidencialismo, o processo é mais árduo, pois envolve o arrependimento sincero daqueles que elegeram o chefe do executivo, sendo um processo mais traumático e doloroso para os que desfrutam das benesses do poder. 

Todo poder ao Povo!!